DIÁLOGO INTERTEXTUAL ENTRE A PULSÃO LÍRICA DE
EDGAR ALLAN POE E SEBASTIÃO BEMFICA MILAGRE
José João Bosco Pereira, mestrando do PROMEL- UFSJ1
resumo
O presente trabalho propõe uma leitura intertextual de "The Raven" e "Annabel Lee" de Poe (1845 e 1849) e Gritos, obra poética de Milagre (1972). A análise está centralizada na concepção de pulsão em Freud como o instinto de morte e libido. O poetas estão distantes no tempo e no espaço. A produção de Poe marcou o fim do século XIX e a de Milagre, o fim do século XX. Esta problematização aparece como uma ruptura (vida/morte) no tema da amada. No contexto da poética moderna, ambos se valem de experiencias líricas e experimentações na e pela linguagem. Este formato não esgota a possibilidade de contextualizações temporal e espacial. Assim, a pulsão é projetada na literatura universal e local, que abrange os modos de imaginação. Eros e Tanatos estabelecem os pontos de aproximação e de distância entre os modos de representação da morte. Ao distinguir estes pontos, a literatura é concebida de diferentes culturas.
Palavras-chave: A poética da modernidade, o lirismo, a tradição e a pulsão.
Abstract
This work proposes an intertextual reading of "The Raven" and "Annabel Lee" by Poe (1845 and 1849) and Gritos, Milagre’s poetry book (1972). The analysis is centered on the concept of pulsion in Freud as the death instinct and libido. The poets are distanced by time and space. This problematization appears as a disruption (life/death) in the theme of the beloved. In the context of modern poetry, both used for poetic experiences and experiments in the language. The production of Poe marked the end of the nineteenth century; Milagre, at the end of the twentieth century. This format doesn’t exhaust the possibility of temporal and spatial frameworks. Thus, the pulsion is designed in the universal and local literature, that spans the modes of imagination. Eros and Thanatos they establish some points of approximations and distance between the modes for representation of death. By distinguishing these points, the literature is conceived in different cultures.
Word-key: The poetic of the modernity, lyricism, tradition and pulsion.
INTRODUÇÃO
A lírica de Poe em Milagre, objeto da Poesia Moderna em diálogo com a Psicanálise, nos remete aos estudos da linguagem e da representação. Ambos poetas estão imbuídos da sutilidade e versatilidade “de experiências poéticas e experimentações com e na linguagem que marcaram do fim do século XIX, [que] sinaliza uma tradição que não se esgota em marcos temporais e espaciais”, conforme a síntese de Resende (2010)1
Por escolha metodológica, o direcionamento é centrado na força de temas recorrentes, segundo as quais se busca a interface de escrituras e de até diferentes épocas. As metáforas nos sugerem a morbidez e o idílio fúnebre de imagens. Imagens típicas da Psicanálise. Gritos de Milagre (1972) e “The Raven” / “Annabel Lee” (1845 e 1849) é verso-anverso de experiências estéticas não isoladas da cultura. Nesse sentido, a poesia tece o jogo de signos; evoca um pelo. Nada é gratuito. Em Poe e Milagre, pinçam-se os aspectos das mimeses que têm pulsão lírica como caudal híbrido de camadas da psique e da cultura. Assim, o poema não se fecha em si, abre-se para um novo olhar. Os poemas se aproximam quando se procede uma análise intertextual, interdisciplinar, à luz da Psicanálise e da Tradição Poética.
1. Psicanálise e a lirica: Diferenças entre Edgar Allan Poe e Sebastião Bemfica Milagre
Jean Bellemin-Nöel (1978), fundamentada em Lacan, afirma que a literatura foca “o não-consciente” e a psicanálise: “a teoria do que nos escapa!” Elas leem o cotidiano e historicidade como pretextos para falar de outras “realidades”, construções performáticas e representativas no individuo, falando do homem que está falando. Lacan, certa vez, foi categórico, ao sentenciar que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, (1978, p. 28). A partir dessa inferência, ela articula a literatura e psicanálise no eixo paradigmático do significante deslizante entre o que flui na textualidade e naquilo que tem vestígios no recalque, preconizando assim: “Nada é gratuito, tudo é significante”, segundo Freud. Bellemin-Nöel sintetiza, finalmente: “Os poetas nos falam de coisas que eles não sabem: o poema sabe mais que o poeta. O sentido excede o texto”. (1978, p. 13 ).
Nesse sentido, é que se deve efetivar a conceituação de Eros e Thanatos. Inclusive, em A morte em Veneza, o editor do prólogo de Thomas Mann (1944) centraliza sua tese, ou melhor a de Freud como impulso artístico no escritor e na obra literária, de modo eficiente:
É mesmo um dos traços da obra: o parentesco com as teorias de Freud. (...) uma ilustração da libido com o impulso artístico: a luta entre a austeridade do artista e o impulso erótico, o processo de regressão onde [aparece] o mar, o simbolismo erótico do sonho, as aberrações do desejo, associadas com a infecção orgânica, o desejo da morte, enfim, os conceitos fundamentais da psicanálise [como] nesta representação de uma sombria e estranha aventura. (grifo nosso) (MANN, 1944, p. 7-11)
O diálogo de Fedro com Sócrates (MANN, 1944, p. 175-8) situa a pulsão na narrativa de A morte em Veneza. A representação lírica acontece em Poe e em Milagre: “A beleza (...) é o caminho da sensualidade; perigos deliciosos; cheia de culpa O poeta não poderá seguir a via da beleza sem que Eros seja guia (...). Devemos aspirar ao amor, nosso prazer e vergonha. Somos dissolutos e aventureiros da emoção. Nossa gloria é farsa.” (Grifo nosso) Molloy (2003) aborda as diferentes narrativas para evitar a redução desta à escrita de si apenas. Embora reconheça a autobiografia, Molloy vê que a hibridez nos remete à poética como o alcance social e a constitutividade textual. O que se questiona são as relações de poder entre a escritura em seu contexto de produção. Molloy (2003, p. 19) apresenta a relação entre inconsciente e formas culturais de manifestação literária: “Ao considerar a mediação narrativa (...), um fragmento, um rastro, armazenado na memória que guia a inscrição do sujeito (...) nas ‘formas culturais’ (...), os escritores recorrem ao arquivo europeu em busca de fragmentos textuais com os quais, (in)conscientemente forjam imagens.” Como Molloy, Ramos (2008), entende as imagens de desencanto do mundo (para Weber, isso é a racionalidade e secularização versus o desprestígio da tradição) na melancolia lírica no contexto de profissionalização na crise da modernidade e na divisão do trabalho intelectual. O escritor se torna um exilado na Polis e um guerreiro solitário no “bisturi do dissecador” (p.16) positivista. Para sobreviver, o escritor se tornar um “sujeito orgânico” (p.20), politizado, capaz de articular “as tensões entre as exigências da vida pública e as pulsões da literatura moderna” (2008, p. 21).
Poe (2007) culpa o sobrenatural pela morte da amada, igualmente Milagre (1972). A atualidade de Poe é recorrente a tal ponto que Ricardo Piglia (1997) 2 aproxima a Psicanálise à Tragédia no diálogo entre os poetas. Para Piglia, Freud buscou a tragédia como forma, não gênero, que estabelece uma tensão entre o herói e a palavra dos mortos. A tensão é ambígua entre a palavra dos deuses com a dos mortais. Tal estruturação parte da palavra: recurso pessoal que desmistifica o poder e remete ao homem como autor de seu destino e vida.3
Em literatura, a tragédia como um gênero é uma tensão entre o herói e a palavra dos deuses, do oráculo, dos mortos, uma palavra vinda do outro lado, dirigida ao sujeito, que não entende tais mensagens. O herói escuta um discurso enigmático como em Édipo, Hamlet, Macbeth. Essa discussão começa com Nietzsche e chega a Brecht.
2. Contextualização da vida e obra de Edgar Allan Poe
Foram comemorados os 200 anos de morte de Edgar Poe em 11 de junho de 2009. Poe foi filho de casal de atores de teatro4, nasceu em 19 de janeiro de 1809 em Boston. Morreu em Baltimore, aos sete de outubro de 1849, como poeta, romancista, crítico literário e editor estado-unidense. Ao morar com a Tia Allan em Baltimore, dedica-se ao jornalismo em Filadélfia e Nova York. Ele fundou sua tipografia5, depois de conflitos com os editores e seu padrasto. Sua paixão à literatura o inquietara a ponto de uma dedicação compulsiva6 como gênio instigante. Em 1845, ele publica “The Raven”, “Annabel Lee”, “Leonore”, dentre outros. Com 36 anos de idade, Poe (2007) escreveu: “Corvo”7 e “Annabel Lee”. Poe atribui à sombra do mal a perda da sua amada. Segundo alguns críticos, a versatilidade em Poe garantiu seu sucesso editorial e a valorização da posteridade. Elaborou uma poética “sui generis” quanto ao estilo e à questão da morte.8 Para não delongar sobre Poe, vale a pena, para conhecimento do leitor, aludir à referência bibliográfica específica, mínima, sobre esse poeta no final dessa pesquisa.
3. Aspectos da vida e obra de Sebastião Bemfica Milagre
A partir de 1940, Milagre começa a escrever seus sonetos: tinha 17 anos. Com a morte do pai, volta à cidade natal, interrompendo o segundo grau que iniciara no Colégio Arnaldo de Belo Horizonte. Passa no concurso da Polícia Civil. Trabalhou por 30 anos como escrivão. Um dos espaços de elaboração e inspirações para tematizar o cotidiano e a abjeção da humanidade; rebelou-se contra a ditadura. A visão milagreana do “mundo (i)mundo” se desvae ao maniqueísmo vital, mas se revela paradoxal ironia. O corpo se torna o cárcere da alma e o locus das pulsões contraditórias do pecado: as inclinações do desejo e da sexualidade. Milagre morre em 22 de fevereiro de 1992, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Parte de sua obra pode ser vista na Internet9 e no Suplemento Literário de Minas Gerais. Das 20 obras de Milagre, citaram-se, para o leitor as conheça, algumas delas no final desse trabalho, além de textos alusivos de teóricos sobre o poeta, contemporâneo de Adélia Prado10.
4. Uma proposta de análise intertextual
Busca-se uma análise intertextual à medida que foca o que aproxima e diferencia a Poe e Milagre, tendo em vista a mesma temática e estilos semelhantes. Estão deslocados no tempo e no espaço cultural da modernidade. A obsessão de Poe está na construção do verso e sua musicalidade, cujos recursos da língua inglesa11 reproduzir a ambiência lírica da melancolia e do luto, impregnada de rimas internas e de arranjos eufônicos. 12 Essa obsessão se verifica em Milagre com uma centralidade do verso livre e a engenhosidade melancólica de poeta tardomoderno.13 Ao se cotejar os poemas, sentir-se-ão tais diferenças e aproximações.
A Colecção Tales of the Grotesque and Arabesque foi traduzida por Baudelaire como "Histoires Extraordinaires“, em 1845, e fora publicada no Jornal Evening Mirror: os poemas “The Raven” (O Corvo) e “Annabell Lee”. Mais especificamente, Poe publicou “O Corvo” pela primeira vez em 29 de Janeiro de 1845.
O Corvo
(Publicado em 29 de Janeiro de 1845; aqui a tradução de Machado de Assis)
Em certo dia, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais".
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o colchão refletia
A sua última agonia.
Poe começa a situar a aparição do “Corvo”, em que flui a saudade da amada, cuja memória é a cinza sobre a brasa: “Era no glacial dezembro;/ Cada brasa do lar sobre o colchão refletia/ A sua última agonia.”
Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.
O contraste se apresenta à medida que a esperança se esvae como o ocaso do sol. O eu-lírico mergulha-se no inconsciente com imagens fúnebres como pesadelo. O poema se anuvia com o reino de sombra, um locus onírico. O eu-lírico sussurra o nome de sua amada: “Só tu, palavra única e dileta.”
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito,
Levantei-me de pronto, e "Com efeito,
(Disse), é visita amiga e retardada
"Que bate a estas horas tais.
"É visita que pede à minha porta entrada:
"Há de ser isso e nada mais".
Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo, e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
"Mas como eu, precisando de descanso
"Já cochilava, e tão de manso e manso,
"Batestes, não fui logo, prestemente,
"Certificar-me que aí estais". (...)
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".
Não tem certeza do que encontrará no sono-sonho como resposta ao seu lamento: a repetição atroz: “Nunca mais”, a denegação da vida; “Que dos seus cantos usuais/ na amarga e última cantiga.”
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranquilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da Lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se despraziam
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível:
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
"Manda repouso à dor que te devora
"Destas saudades imortais.
"Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora".
E o corvo disse: "Nunca mais".
Esse estribilho flui imagens de seu desejo febril de reencontrar o impossível: da tumba, emerge a figura da morta e o poeta chora a perda da amada de sua alma.
"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
"Onde reside o mal eterno,
"Ou simplesmente náufrago escapado
"Venhas do temporal que te há lançado
"Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
"Tem os seus lares triunfais,
"Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".
"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
"Por esse céu que além se estende,
"Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
"Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
"No Éden celeste a virgem que ela chora
"Nestes retiros sepulcrais,
O domínio de Tanatos e o seu legado insuportável, eterno são elementos constitutivos da poética. A construção da personagem funciona como arquétipo, um idílio fúnebre e a universalidade da perda da amada.
"Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o corvo disse: "Nunca mais!"
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!
"Regressando ao temporal, regressa
"À tua noite, deixa-me comigo...
"Vai-te, não fique no meu casto abrigo
"Pluma que lembre essa mentira tua.
"Tira-me ao peito essas fatais
"Garras que abrindo vão a minha dor já crua"
E o corvo disse: "Nunca mais".
E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
O tema atende à alegoria do Ultra-romantismo: o corvo é o ícone de morbidez. O “corvo repousa sobre o busto de Atena, como ícone da inexorabilidade da morte.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais. (...)
Dessa leitura de O Corvo, com o olhar machadiano, se depreende: para Poe, segundo Piglia (1997), o escritor-detetive: é capaz de discutir o mesmo que a sociedade discute, mas de outra maneira. Essa maneira é a chave especial. O psicanalista nos convoca como sujeitos trágicos; diz que há um lugar em que todos somos sujeitos extraordinários, lutando contra tensões e dramas profundíssimos, e isso é muito atraente. Convoca-se o sujeito a um lugar extraordinário, tirando-o do anonimato e repensando o sentido da experiência cotidiana. Pode-se estabelecer um nexo entre ambos quanto à escrita como estado simultâneo de lucidez e loucura, em que eles transferem seus conflitos e os da modernidade para a poética como a arte da natação intrapsíquica. A Literatura é o divã desse pesadelo!
Assim, Freud visualiza a pulsão de morte em Interpretação dos Sonhos como simbologias que foram já recalcados pela censura da psique. Seja o mar e a sombra, seja o sonho, a negação do desejo e da doença, a vida é a estranha aventura que se abala. A tragicidade da vida como inexplicação em si na morte. A tensão vida-morte é a constante das pulsões intrapsíquicas.
Em Gritos (1972), obra de ruptura, com uma tônica melancólica decorrente do passamento de sua esposa Lilia. Em cada página, o poema assume formas diferenciadas nas variações semânticas. A trova servirá a outro propósito: um canto de lamentação e o epitáfio ao espectro da mulher e seu encontro em clima onírico e utópico. Veja este excerto de Gritos, de Sebastião Milagre (1972, p. 32 – 57)
Morrer, deixando incompletos
sonhos e planos que, um dia,
formulamos, inquietos,
eu e a tão meiga Lilia; (...)
Que é isso, Deus-Abrigo?
Dizei, por Virgem Maria!
Será que foi por castigo
que fiquei sem a Lilia? (P. 32) (...)
Quebrem-se, então, os meus ossos;
me tratem com zombaria
e reduzam-me a destroços,
se é para o bem da Lilia. (p. 33) (...)
Em 1972, Grito, obra de ruptura, Milagre justifica-se, com tom melancólico-rebelante: “Gritar que o amor é incompreensível por querer sustentar-se eterno na fugacidade da vida terrena... (...) Gritar que a vida é insuportável. (...) não há remédio para o amor cujo desfecho é a morte. (...) Por que tive o destino de amar profundamente e a uma só mulher? Melhor é destruir estes versos? Melhor que ninguém lembre que Lilia e Tião se amaram?...” Nesse modo, há um distanciamento da tradição e um questionar filosófico marcado pelo ceticismo em Milagre. O mal de arquivo se perpassa a crise da modernidade e na postura crítica à erotização do poema como libido (em Prazer do Texto em Barthes14) e ao deslocamento metafórico da morte como pathos. 15
'É assim que o destino bate à prota' - Beethoven
... trombo-------tromba
tampa
tomba
trombadoença assoma
a sombra assombra
fataldia
Tomba, tromba na história de sua vida, o labirinto da sua melancolia, um luto prolongado em cada obra, em cada verso, em cada suspiro, em cada grito. Um lamento como Beethoven: apenas a solidão fica do que não parte, a outra parte é irrecuperável. Cada nota musical, cada verso, cada pauta de dor, cada partitura de réquiem é só uma rememoração do espectro. O retrato é o espelho do que já não é; não existe mais. Especula o além, só fica aqui no agora, flui o aquém, da vida terrenal. E “assim o destino bate à porta...” como intuíra Beethoven. O poeta não “tampa” seu luto, seu réquiem: solve cada dia sua melancolia... Há uma fatalidade, tragicidade poeniana (como Poe sofre a perda de Virginia tanto quanto o eu-lírico amaldiçoa o mar, que lhe roubara Annabel Lee). Uma noiva morta lhes resta. Lilia e Annabel Lee são túmulos, namoradas da morte, moradas finadas, amadas finitas.
.... por que a lilia foi-se?
ah! foice
era esposa noiva
morrenova
estou a atri
batido bulado
ver amo
gastado finado
entre tanto
amor mor não mor
re
O conceito de eterno retorno de Nietzsche está na circularidade do sofrimento na melancolia e no luto do poeta como arconte ou homem da memória de que nos elucida Colombo (1991)16 e Le Goff (2003)17. Aí está o segredo de Milagre18. Para Adorno, isso é a indissolubilidade do segredo.19 Em O Mundo Mundo-Outro (1976, p. 7), Dr. F. Teixeira justifica:
Tudo anuncia a volta. A presença imorrida. (...) ninguém morre completamente. Aí começa o sono da realidade entre os sonhos da verdade. Mas, seus sentimentos pertencem ao poeta, que estourou as paredes do tempo com os gritos do amor e acordou os homens para segredar-lhes ser a ausência a única convicção da presença dos que amamos numa estação, bem próxima, de espera. [Gritos] foi a melhor herança que, todos aqui, recolheram, por você, Sebastião, de sua sempre-lembrança, sempre-presença, sempre-Lilia. (MILAGRE, 1976, p.8):
Marques (2003, p.143 e 146) explicita o “Um Duplo Envolvimento” e “Uma Dupla Operação” no arquivamento de si: “prática de construção [de imagem intima de si] e de resistência” (idem, p. 147), talvez a possíveis (in)compreensões sobre sua poética em uma comunidade em transição entre o tradicional e o moderno. Marques em Arquivamento do Escritor (2003)20, especifica a relação poética-mercado, Marques (2007)21 a partir do conceito de locação em: literário, cultural, político e dos afetos. O poeta não pode se furtar da tensão entre a autonomia da arte e sua sobrevivência no mundo editorial e mercadológico. Essa tensão mercadológica e os níveis de locação de uma obra podem ser outros critérios de análise dessas obras. Aqui só se alude a isso, sem contudo realizar uma análise, o que fugiria ao objetivo central dessa pesquisa.
Li li amor
minha na
morada
quando e quanto
te terei hoje-sempre?
querida
quero ida contigo
e ter na
feliz cidade. (p. 57)"
Nesse poema milagreano, a indagação do eu-lírico não encontra respostas para a morte da amada. O desespero aumenta com o silêncio de Deus22 e não aceita resignar-se frente ao mistério da finitude. A morte é vista como trágica. Cabe ao homem fugir no sonho. Para o poeta a felicidade dos outros lhe faz sofrer mais com a inexorável sentença de morte da amada. Resta o poeta projetar um encontro além com Lilia quando sua vida aqui é só melancolia-solidão, taedium vitae e desejo de morte. É o Spleen, de Baudelaire.23
Mas, cotejando Milagre e Poe, procura-se articular a figura de Lilia à “Annabel Lee”, de Poe (2007), ambas jovens e falecidas prematuramente.
“Annabel Lee” - 1849 24 Veja um fragmento do poema do Poe (2007) 25:
“Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor –
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
A ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu da nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes do céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
de muito mais velhos a mar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem os demônios debaixo do mar
poderão separar a minha alma da alma
da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só lembram olhares
Da linda que eu sobre amar;
E assim estou deitado toda a noite ao lado
do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu Fado,
no sepulcro ao pé do mar,
ao pé do murmúrio do mar."
A tragicidade grega se reitera, mas deixa marca de tradição não somente no cânone. Eufonicamente, há ecos da “Anabell Lee”, de Poe na escrita milagreana... São ecos de vozes femininas em ambas as obras. O tema da perda da amada é mais frequente do que se pensa na literatura mineira, um dos motivos é a melancolia.
Conclusão
Que diferenças e convergências há entre Poe e Milagre, sendo dois autores de épocas diferentes? A aproximação temática comum entre eles, não descura da diferença de estilos e de contextos sociais. O tema da morte e da morte da mulher amada é uma das convergências. A diferença reside no estilo e no deslocamento desse tema em épocas diferentes.
Diante da finitude do homem, o Simbolismo apela para uma transcendentalidade26 cujos status trouxe não menos o espaço simbólico de fugas e excessos. Contudo, significou o simbolismo em outras versões no modernismo uma indagação sobre os mistérios que a ratio não ousava decifrar contundentemente. Daí uma demanda paradoxal em Poe e em Milagre, ao mesmo tempo, urge fiscar-lhes a criatividade gótica e os recursos à poética moderna, com certo ceticismo e rebeldia. Em ambos, o gênio irrequieto e estrutura rebelante só foram reconhecidos tardiamente, uma vez que seu modo próprio de escritura representou uma ruptura e ameaça ao status quo.
O que se destaca é a ousadia lírica de ambos, visto que se apresentam paradoxalmente o ceticismo ao lado de reflexões religiosas. Ambos fizeram sonetos de cunho tradicional na perspectiva canônica. Na obra Gritos (1972), Milagre também começa com um soneto a Lilia, sua primeira esposa, que serve de mote ou leitmotiv para uma desconstrução como desdobramentos ousados à maneira modernista e vanguardista.
Ambos se revelam melancólicos e incisivos contra a ortodoxia. Em Talento Individual e Tradição, T. S. Eliot (1989) preconizou a maneira pela qual o poeta elabora uma diferente interpretação da tradição. É essa a perspectiva de diálogo entre psique e cultura, ou seja, entre pulsão e lírica, focando Eros e Tanatos nos temas inovadores em Poe e Milagre.27 O fluir da libido no verso, exige meticulosidade do poeta, articulando elementos de uma pulsão lírica para deixar falar o desejo, negado pela censura e pela Ratio. Ele mimeticamente elabora seus conteúdos inconscientes.
A escritura é híbrida, um conjunto de pulsões: uma representação materializada na linguagem, certo recorte do “real”, da libido no locus verba do texto e do contexto como materialização do desejo, seja calcados nos princípios de morte ou de vida. Poe e Milagre questionam ou descondicionam visões estereotipadas de homem e de mundo. O poema é o lugar da sublimação e da melancolia que perpassa o processo de criação densa. Poe re-elaborando o goticismo e o neosimbolismo na poesia e na prosa. Milagre apropriando-se de outras estéticas que não parnasianas e realistas, deu asas à criatividade neoconcretista e variantes do poema práxis e processo. Nesse âmbito, ainda são válidas as reflexões ousadas de Haroldo de Campos (1963). Especialmente, Milagre se posicionou como poeta engajado e participante, aproximando-se de Gullar. Nesse sentido, sua poesia articula o sentimento/sentimental com o social / cultural: o psíquico se insere na economia poética dos paradoxos culturais.
Ambos se constituíram divisor de águas em suas sociedades. O Eros exige a libidização das relações como realização e auto-realização do ego que se abre ao Id freudiano. O superego se interpõe como censura e ruptura do desejo e causa o recalque. A vida humana se torna o espaço de frustração amorosa e conflito existencial, diluindo as razões da submissão do homem ao destino e ao trauma da morte.
Assim como apontara Ramos (2008, p. 15): “... nenhum texto pode ser lido como documento passivo, como um testemunho transparente da crise. (...) A literatura moderna se constitui e prolifera, paradoxal, anunciando sua morte e denunciando a crise da modernidade.” Para Ramos (2008, p. 38)28, que conceitua o poético: “O olhar – e a autoridade da poesia começa onde termina o mundo representável pela disciplina. Daí, a literatura ser uma fronteira da fronteira, uma reflexão sobre os limites da lei.” Nessa acepção moderna, é que inserimos as preocupações em contextualizar a análise com um viés social e político da poética.
Contextualizando a obra de ambos, infere-se que Poe e Milagre são signos de uma modernidade desigual e tardia, respectivamente. Para situar a obra milagreana, sugere-se a leitura de Corgozinho (2003) quanto ao referencial benjaminiano de perda da aura como o processo baudelaireano29 de transição entre a tradição e a modernidade, trilhas que ainda nos instigam.
A partir da visão de Bruno (1982) sobre os paradoxos da vida humana à luz da psicanálise, explicitamos a inscrição de Freud nos estudos do Inconsciente como um instrumental conceitual interdisciplinar, atualizado para a análise do tema que aqui se abordou na dinâmica dialética de Eros e Tanatos em ambos poetas, embora de épocas diferentes e estilos convergentes.
Inclusive em Bellemin-Nöel (1978) se deve considerara a pulsão à luz do conceitto freudiano de sublimação. E a pulsão lírica, como entendemos aqui, recobre o instinto como categoria de comportamentos pré-estabelecidos (elaboração criativa que supera o estereotipo). Porque a a pulsão como libido, certamente tem os mesmos mecanismos organizadores da mímesis na Poética Aristotélica, que abrange os modos de imaginação e os modos de representação na escritura como mecanismos de suspensão relativa da moralidade e fluição psíquica quando de seu processo de desrecalque e possível tensão criativa da Escritura como tecido ou tecelagem entre os universos do Logós e intuitividade, fundindo-os sem limites rígidos como pensara Derrida em Mal de Arquivo (2001) e em Farmácia de Platão (2005). O tecido do texto incorpora vestígios do inconsciente e se torna espaço de fruição libidinosa, mediando nos labirintos da literatura os conteúdos recalcados pela cultura.
Ou melhor, o enfrentamento do sofrimento e o esvaziamento do sentido existencial, uma leitura que parte da Psicanálise e avança em outros saberes, como: a Antropologias, Sociologia e a Filosofia. É claro é uma abordagem ampla citada apenas como insinuação de futura leitura. À luz da escritura de Poe, não pode deixar de dizer que Milagre constitui, nas margens, um poeta em processo de conquista das letras, uma vez que se inspira naquele seu fazer poético ousado, tardomoderno.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
REFERÊNCIA GERAL
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